Cada um de nós só consegue entregar ao mundo aquilo que aprendeu a dar. E, muitas vezes, também espera receber dos outros aquilo que passou a vida inteira procurando.
Pode parecer uma ideia simples, mas, quando a gente começa a olhar para as próprias relações, percebe o quanto ela ajuda a entender alguns comportamentos nossos inclusive aqueles que, de fora, parecem não fazer sentido.
Eu comecei a perceber isso olhando para a minha própria história, para a relação com meu pai e para as diferenças entre a maneira como ele aprendeu a enxergar a vida e a maneira como eu aprendi.
E, quanto mais penso nisso, mais percebo que esse mecanismo não aparece apenas dentro de casa ou nos relacionamentos amorosos. Ele também pode estar presente na maneira como escolhemos nossos representantes políticos, defendemos nossas opiniões e reagimos quando alguém questiona aquilo em que acreditamos.
Cada um aprendeu a ler a vida de um jeito
Meu pai aprendeu que ser pai era trabalhar, colocar comida dentro de casa e garantir que a família tivesse o necessário para sobreviver.
Essa foi a maneira que ele encontrou de demonstrar responsabilidade e cumprir aquilo que acreditava ser seu papel.
Eu, por outro lado, tive uma trajetória diferente. Minha adolescência foi difícil, passei por experiências que me fizeram olhar para a vida de outra maneira e, ao longo do tempo, precisei reconstruir muita coisa dentro de mim.
Isso não significa que um esteja certo e o outro errado em tudo. Significa que nós aprendemos coisas diferentes, a partir das experiências que tivemos.
É como se cada um tivesse aprendido um alfabeto emocional próprio.
O problema começa quando a gente acredita que todo mundo precisa ler a vida usando as mesmas letras que aprendeu.
Hoje, por exemplo, estou tentando construir alguma coisa por meio da criação de conteúdo, dos podcasts e dos artigos que escrevo. Ainda não tenho o retorno financeiro que gostaria, e meu pai olha para essa realidade a partir daquilo que conhece. Para ele, se eu não estou trabalhando de uma maneira que produza um resultado financeiro claro, posso estar simplesmente perdendo tempo.
Em alguns momentos, essa diferença faz com que ele me enxergue como alguém que não quer trabalhar.
Mas eu consigo entender de onde vem essa percepção, mesmo quando ela me machuca.
Ele aprendeu a reconhecer o trabalho de uma maneira. Eu estou tentando construir um caminho diferente.
E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de aceitar nas relações humanas: nem sempre as pessoas vão conseguir enxergar o que estamos tentando fazer, porque estão olhando para a nossa vida a partir das referências que construíram ao longo da própria história.
Isso também vale para nós. Quantas vezes julgamos alguém sem considerar tudo aquilo que essa pessoa viveu?
Quando procuramos nos outros aquilo que sentimos falta
A maneira como fomos tratados, as experiências que tivemos e as necessidades emocionais que ficaram sem resposta podem influenciar a forma como nos relacionamos.
Quando alguém passa muito tempo procurando acolhimento, reconhecimento ou segurança e não encontra isso nas relações mais próximas, pode acabar procurando essas coisas com muita intensidade em outra pessoa.
E é aí que, às vezes, começamos a idealizar.
Não enxergamos apenas quem está diante de nós. Começamos a enxergar também aquilo que gostaríamos que essa pessoa fosse.
Ela nos dá atenção, e isso parece representar tudo o que sempre procuramos. Ela demonstra carinho, e sentimos que finalmente encontramos alguém capaz de preencher um espaço que ficou vazio durante muito tempo.
Aos poucos, podemos deixar de observar a relação como ela realmente é e começar a nos apegar àquilo que imaginamos que ela poderia ser.
É como se, sem perceber, colocássemos sobre os ombros de outra pessoa a responsabilidade de resolver dores que começaram muito antes de ela chegar.
E isso pode acontecer mesmo quando não temos consciência do que estamos fazendo.
Talvez seja por isso que algumas pessoas permaneçam tanto tempo em relacionamentos que as machucam. Não necessariamente porque não percebem todos os problemas, mas porque reconhecer esses problemas significa também encarar a possibilidade de que aquela pessoa não seja quem elas tanto esperavam.
E, quando colocamos nossas esperanças demais em alguém, essa constatação pode doer muito.
Não estamos falando apenas de perder um relacionamento. Estamos falando de perder a ideia de que finalmente encontramos aquilo que nos faltava.
Quando o parceiro deixa de ser uma pessoa e vira um salvador
Existe uma diferença entre amar alguém e acreditar que essa pessoa será responsável por nos fazer sentir completos.
Amar é construir uma relação com alguém que tem qualidades, defeitos, limites e contradições. Idealizar é começar a enxergar essa pessoa como se ela fosse capaz de resolver tudo aquilo que não conseguimos resolver dentro de nós.
Quando isso acontece, os sinais de alerta podem até aparecer, mas nem sempre recebem a atenção que merecem.
A gente justifica determinadas atitudes, diminui a importância de situações que nos machucam e encontra explicações para comportamentos que, se fossem vividos por outra pessoa, talvez reconhecemos imediatamente como problemáticos.
Por quê?
Porque admitir que aquela pessoa não é quem imaginávamos pode nos obrigar a questionar as próprias escolhas. Pode fazer com que a gente se pergunte como não percebeu antes, por que insistiu tanto ou por que depositou tantas expectativas naquela relação.
E ninguém gosta de perceber que se enganou, principalmente quando investiu tanto sentimento em alguma coisa.
Mas existe uma diferença entre ter se enganado e ser uma pessoa incapaz de reconhecer um erro.
Todos nós podemos interpretar uma situação de maneira equivocada. Podemos confiar em alguém que nos decepciona, apostar em uma relação que não funciona ou acreditar em uma promessa que não se cumpre.
Isso faz parte da experiência humana.
O que nos prende não é necessariamente o erro que cometemos. Muitas vezes, é a dificuldade de aceitar que cometemos um erro e seguir em frente sem transformar isso em uma condenação de nós mesmos.
E esse mecanismo não fica restrito à vida amorosa.
Ele também pode aparecer em outras áreas da nossa vida, inclusive na política.
Quando transferimos para um político a esperança de sermos salvos
Pense em como algumas pessoas se relacionam com seus representantes políticos.
Em vez de enxergarem alguém que ocupa um cargo público e precisa ser avaliado por suas decisões, algumas passam a enxergar uma figura que representa a solução para tudo aquilo que as incomoda.
É o político que finalmente vai colocar o país no caminho certo, resolver os problemas, enfrentar os inimigos e devolver às pessoas a sensação de que as coisas estão sob controle.
É claro que todos temos expectativas em relação a quem elegemos. Queremos melhorias, políticas públicas que funcionem, oportunidades e respostas para os problemas da sociedade.
O problema não está em ter esperança ou apoiar alguém.
O problema começa quando a esperança se transforma em idealização e a pessoa deixa de conseguir avaliar criticamente quem escolheu apoiar.
A partir daí, uma crítica ao político pode ser sentida como uma crítica à própria pessoa. Questionar suas decisões parece um ataque aos valores que ela defende, à sua inteligência ou até à sua identidade.
E, quando isso acontece, a discussão deixa de ser apenas sobre o que um representante fez ou deixou de fazer.
Passa a ser sobre quem está certo, quem está errado e quem precisa vencer a discussão.
É nesse momento que podemos começar a encontrar justificativas para comportamentos que condenaríamos com facilidade se fossem praticados por alguém do outro lado.
Uma atitude que consideramos inaceitável em um político pode parecer justificável quando vem daquele em quem confiamos. Uma falha pode ser tratada como prova de incompetência quando acontece com o adversário, mas como um simples detalhe quando acontece com o nosso candidato.
Isso não significa que todas as pessoas que apoiam um político estejam agindo dessa maneira, Significa que vale a pena observar se estamos usando os mesmos critérios para avaliar pessoas de quem gostamos e pessoas de quem discordamos.
Afinal, se acreditamos que nossos valores são importantes, eles deveriam continuar importantes mesmo quando alguém que admiramos deixa de respeitá-los.
O que as redes sociais têm a ver com isso?
Hoje, não formamos nossas opiniões apenas por meio de conversas presenciais, jornais ou programas de televisão. Boa parte do que vemos sobre o mundo passa pelas redes sociais.
E existe um detalhe importante nisso: as plataformas utilizam sistemas de recomendação que procuram selecionar conteúdos com maior probabilidade de despertar nosso interesse e gerar interação.
Isso pode ser útil. Afinal, ninguém quer passar o dia inteiro vendo conteúdos que não têm relação alguma com seus interesses.
Porém existe um lado que merece atenção.
Conteúdos que despertam emoções fortes como medo, indignação, revolta ou sensação de injustiça podem provocar reações intensas. As pessoas comentam, compartilham, respondem e discutem. E esse engajamento pode ajudar determinado conteúdo a alcançar ainda mais gente.
E em alguns ambientes, aquilo que nos provoca emocionalmente pode ocupar muito espaço na nossa atenção.
Imagine uma pessoa que já acredita que o grupo político de que não gosta é responsável por todos os problemas do país. Se ela passa a consumir repetidamente conteúdos que reforçam essa percepção, pode começar a sentir que está diante de uma confirmação constante de suas crenças.
Ela encontra um vídeo, depois outro, depois um comentário que parece comprovar tudo aquilo que já pensava.
Aos poucos, pode ter a impressão de que todo mundo enxerga a situação da mesma maneira e de que qualquer pessoa que discorde está mal-informada, sendo manipulada ou agindo de má-fé.
O mesmo pode acontecer no sentido contrário, com pessoas que defendem posições políticas opostas.
Quando nossas redes de informação ficam muito fechadas em opiniões semelhantes às nossas, perdemos oportunidades de entrar em contato com argumentos diferentes e de perceber nuances que não cabem em explicações simples.
E, se já estamos emocionalmente envolvidos com uma ideia, conteúdos que reforçam essa ideia podem encontrar em nós um terreno ainda mais favorável.
Por isso, não basta perguntar se uma publicação confirma aquilo em que acreditamos. Também precisamos perguntar se ela apresenta informações confiáveis, se deixa de fora algum contexto importante e se estamos compartilhando porque entendemos o assunto ou simplesmente porque sentimos vontade de reagir.
Nem tudo aquilo que nos provoca uma emoção intense merece a nossa confiança.
Por que é tão difícil reconhecer quando estamos errados?
Existe outro aspecto dessa questão que considero importante.
Quando investimos tempo, dinheiro, sentimento ou esperança em alguma coisa, reconhecer que fizemos uma escolha equivocada pode ser doloroso.
Não queremos pensar que perdemos tempo em uma relação, que confiamos na pessoa errada ou que defendemos alguém que não correspondeu às nossas expectativas.
Em situações assim, podemos tentar proteger a imagem que construímos de nós mesmos. Em vez de reconsiderar nossa posição, procuramos explicações que nos permitam continuar acreditando nela.
Na psicologia, um dos conceitos relacionados a esse desconforto é a dissonância cognitiva: a tensão que pode surgir quando nossas crenças, atitudes ou ações entram em conflito.
Pense em alguém que acredita profundamente que determinado político representa a honestidade. Quando aparece uma informação confiável que contradiz essa imagem, a pessoa precisa lidar com um conflito entre aquilo em que acreditava e aquilo que está descobrindo.
Ela pode examinar as evidências e rever sua opinião. Mas também pode rejeitar a informação sem avilia-la adequadamente, encontrar justificativas ou atacar quem trouxe a questão.
Essas reações não são exclusivas da política. Também podem acontecer nos relacionamentos, no trabalho e em qualquer situação na qual reconhecer um erro ameace a imagem que temos de nós mesmos.
E aqui existe algo que vale a pena observar: às vezes, defendemos tanto uma pessoa porque reconhecer suas falhas nos obriga a encarar as nossas próprias escolhas.
A questão é saber se estamos dispostos a examinar os fatos mesmo quando eles contrariam aquilo que gostaríamos que fosse verdade.
Porque pensar criticamente não significa desconfiar de tudo ou nunca acreditar em ninguém. Significa não entregar a outra pessoa a responsabilidade de decidir, no nosso lugar, aquilo que devemos considerar verdadeiro.
Talvez a mudança comece quando paramos de procurar culpados para tudo
Quando olho para a minha própria história, percebo como nossas experiências podem influenciar a maneira como interpretamos o mundo.
Meu pai e eu temos referências diferentes. Isso interfere na maneira como ele interpreta minhas escolhas e na maneira como eu interpreto as dele.
Eu poderia passar a vida inteira tentando convencê-lo de que ele precisa enxergar as coisas como eu enxergo. Ou transformar cada discordância em uma disputa para provar quem compreende melhor a vida.
Mas será que isso faria com que ele entendesse a minha trajetória?
E será que eu conseguiria compreender a dele se estivesse ocupado demais tentando provar que a minha maneira de viver é a única correta?
Entender de onde vem a visão de alguém não significa concordar com tudo o que essa pessoa faz ou diz.
Significa reconhecer que cada um carrega uma história e que nem sempre conseguiremos mudar a maneira como outra pessoa enxerga o mundo.
Talvez a parte que realmente esteja ao nosso alcance seja observar o que fazemos com essa diferença.
Podemos continuar tentando encontrar alguém que confirme todas as nossas expectativas, que nos dê razão em todas as discussões e que nos faça sentir que finalmente estamos certos.
Ou podemos começar a reconhecer que nenhuma pessoa, nenhum relacionamento e nenhum representante político está acima de uma avaliação honesta.
Isso exige maturidade, mas também exige uma coisa que nem sempre aprendemos a oferecer a nós mesmos: a possibilidade de errar sem transformar o erro em uma sentença sobre quem somos.
Eu posso ter escolhido um caminho que não deu certo e, ainda assim, aprender alguma coisa com ele. Posso ter confiado em alguém que me decepcionou sem concluir que sou incapaz de reconhecer o caráter das pessoas. Posso ter defendido uma ideia e depois perceber que precisava rever minha posição.
Mudar de opinião diante de novas evidências não apaga a nossa história. Em muitos casos, mostra que continuamos aprendendo.
Ninguém pode fazer por nós o trabalho de olhar para dentro
Talvez uma das coisas mais difíceis da vida seja perceber que aquilo que procuramos desesperadamente nos outros nem sempre pode ser oferecido por eles da maneira como imaginamos.
Podemos encontrar pessoas que nos acolham, relações que nos façam bem e representantes políticos cujas propostas consideremos melhores. Podemos construir vínculos, buscar apoio e trabalhar coletivamente para mudar a realidade.
Não precisamos enfrentar tudo sozinhos.
Mas existe uma diferença entre aceitar ajuda e colocar nas mãos de outra pessoa a responsabilidade por tudo aquilo que sentimos, pensamos ou esperamos da vida.
Quando transformamos alguém em salvador, corremos o risco de deixar de enxergar essa pessoa como ela realmente é. E, quando fazemos isso, também podemos deixar de enxergar a nós mesmos.
Talvez o primeiro passo seja reconhecer as nossas próprias necessidades sem exigir que alguém as resolva por completo. Aprender a questionar aquilo em que acreditamos sem sentir que estamos perdendo quem somos. E entender que podemos amar, admirar e apoiar alguém sem abrir mão da nossa capacidade de pensar.
Não se trata de deixar de acreditar nas pessoas. Trata-se de não confundir esperança com cegueira, amor com idealização ou lealdade com a obrigação de defender tudo o que alguém faz.
Porque, no fim, a nossa responsabilidade não é encontrar uma pessoa perfeita para seguir. É desenvolver a capacidade de reconhecer as imperfeições, avaliar as escolhas e decidir com mais consciência em quem confiamos.
Talvez ninguém possa nos salvar de nós mesmos. Mas podemos começar a compreender por que procuramos tanto essa salvação nos outros.
E, às vezes, é justamente quando começamos a fazer isso que deixamos de precisar transformar alguém em herói ou inimigo para conseguir entender o mundo.
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